Atividades do CLDS

terça-feira, 23 de abril de 2013

Controlo parental e bom uso das tecnologias


O CLDS Manteigas “Dar e Receber”, por considerar atual e de conteúdo apropriado, divulga o seguinte texto de opinião, da autoria da Psicóloga Clínica Sofia Nunes Silva:
"Tânia e Miguel (pais de Mafalda agora com cinco anos) e Lara e Diogo (pais de Madalena, com dez anos e de Manuel com quatro anos) foram passar o fim-de-semana à casa da família materna de Tânia e Lara, em Cabeceiras de Basto no Minho.
Ao almoço:
Miguel: Então meninos, gostaram do passeio esta manhã?
Mafalda: Sim! Eu gostei dos mémés!
Manuel: Sim, eu das vacas!
Tânia: Mafalda desliga a televisão! Combinámos que aqui durante o dia não se liga a televisão! Têm muito por onde brincar! Já bem basta em Lisboa!
Mafalda: Oh, mãe mas eu estava a ver o Sponge Bob!
Miguel: Vamos embora apanhar laranjas e limões!
Lara: Vamos a isso! Estes meninos da cidade precisam de apanhar ar e sujar-se na terra!
Tânia: Olhem, eu e a tia Lara passávamos aqui horas a brincar na rua!
Madalena: A quê?
Lara: Ó filha, a tanta coisa! Nessa altura não havia computadores...
Tânia: E aqui nem tínhamos televisão!
Manuel: Ai não?!
Lara: Não! E por isso brincávamos às casinhas, a fazer comida com tachos velhos e couves que a avó nos dava...
Tânia: Lembras-te da mixórdia que fazíamos?!
Madalena: Ah, eu também gostava de poder fazer! Posso mãe?
Mafalda: Eu também!
Manuel: Eu não! Isso é de meninas!
Lara: A ti podemos dar-te uma pá para escavares na terra!
Manuel: Boa! Mas depois posso jogar computador?
Lara: Já te disse que não! Brincas com o computador em Lisboa ...
Na escola ou quando a tua irmã não estiver a fazer as suas pesquisas! Aqui não há espaço para as tecnologias.
Manuel: Trecologias?? Oh mãe o que é que são Trecologias ?
Lara: Oh fofinho ... vai brincar! Anda!

A rápida proliferação das tecnologias interativas e digitais ao longo da última década – desde os telemóveis, televisão, jogos de computador e Internet – tem transformado as rotinas diárias das crianças e gerado sentimentos ambivalentes nos pais e agentes educativos. Assiste-se por um lado, ao desejo de que as crianças saibam acompanhar e lidar com esta nova realidade. Por outro, à preocupação dos efeitos que a mesma possa ter ao nível do desenvolvimento global da criança.

A televisão há muito que nos conquistou e passou a ocupar muito espaço dentro da casa das famílias. Para os pais serve muitas vezes como distracção, adquirindo um efeito descompressor e anestesiante após um intenso dia de trabalho. Para as crianças o seu efeito não é muito diferente, mesmo porque o seu acesso é total.

Esta é uma tecnologia muito sedutora até porque exige muito pouca intervenção ou acção por parte da criança. Os sons e imagens apelativas, que emite, dão pouca oportunidade para o desenvolvimento da imaginação e da fantasia. Mesmo ao nível dos desenhos animados, muitos dos seus conteúdos estão repletos de ação relacionada com lutas, mortes e tiros. Certamente que uma assistência demasiado prolongada, de acordo com vários estudos, aumenta a vulnerabilidade da criança, face à adoção de comportamentos mais agidos ou agressivos. Principalmente em idades mais precoces, entre os três e cinco anos, onde predomina a confusão entre fantasia e realidade, certos conteúdos poderão ter um impacto demasiado desorganizador.

Por outro lado, a televisão também contribui para um aumento de conhecimento em várias áreas, se por exemplo pensarmos nos programas sobre a vida animal, com imagens reais em lugares diferentes e distantes da realidade da criança.

Os pais têm uma função imprescindível na gestão da sua utilização. Uma opção poderá ser a de assistir com o filho aos seus programas. Desta forma terão conhecimento das suas preferências, poderão discutir os conteúdos de forma a explorar e integrar os sentimentos que daí resultam, estimulando o olhar crítico por parte da criança. 

Ter presente que como para quase tudo, as crianças precisam de regras. Como tal, limitar o tempo que dedicam à televisão a uma hora por dia durante a semana e a duas por dia ao fim-de-semana parece ser mais que suficiente. Desta forma, ajudamos a que a criança se possa dedicar igualmente a outras atividades como brincar no seu quarto, desenhar, ouvir música, tempo para as tarefas escolares, etc. Colocar um televisor no quarto dos filhos pode sair mais barato que contratar uma babysitter para os entreter, mas a partir desse dia os pais podem esquecer qualquer espécie de sucesso nas tentativas de imposição de regras quanto à sua utilização.

As vozes que se levantam contra uma exposição demasiada às novas tecnologias, alegam uma maior tendência para o isolamento social, pela permanência dentro de casa, não favorecendo o desenvolvimento de estilos relacionais e sociais tão necessários na interação com outras crianças; a inatividade física que contribui para o excesso de peso; problemas oculares pelas horas prolongadas em frente aos ecrãs; menos tempo para dedicar às tarefas escolares e a outras actividades mais criativas; e ainda, o comportamento de dependência que pode originar.

No entanto, as mesmas vozes trazem-nos argumentos em como a convivência com esta realidade pode dotar as crianças de uma maior facilidade de adaptação a uma sociedade cada vez mais tecnológica! Alguns jogos de computador requerem uma boa capacidade de coordenação olho-mão e habilidade para a resolução de problemas. Favorecem também o desenvolvimento da aptidão para executarem várias tarefas em simultâneo, algo útil para quem está a crescer num mundo que exige frequentemente essa mais-valia. Os jogos ou pesquisar na internet desenvolvem a capacidade de ser paciente e persistente, qualidades tão necessárias!

Aos seis anos, após a entrada para a escola as crianças passam também a olhar para as novas tecnologias como uma fonte de conhecimento. Também podem jogar jogos e comunicar com amigos ou aderir a plataformas de rede social como o Facebook.
A maioria dos pais ensina os filhos a não falarem com estranhos, não abrir a porta se estiverem sozinhos em casa e a não dar informação pelo telefone a desconhecidos. Também controlam por onde andam, com quem brincam, que programas de televisão vêem, que livros ou revistas lêem. Por isso, os pais não devem assumir que a criança será protegida pela supervisão dada pelos serviços online.

O grande objetivo é a partilha de conhecimento, de opiniões, de pontos de vista e que essa vivência sirva para manter uma comunicação saudável e verdadeira. Só vamos conseguir falar e comunicar com os nossos filhos ao longo da vida, se essa tiver sido uma aprendizagem mútua e construída.

É a construção desta relação de partilha que vai permitir, em idades mais tardias, a possibilidade de encontro numa relação onde a comunicação e o afeto existem sem grandes constrangimentos ou limitações, e onde a confiança impera. Confiança, essa, que vai dar a tranquilidade necessária aos pais permitindo-lhes favorecer a autonomia dos filhos. E também os filhos se sentirão mais seguros e responsáveis para fazer as escolhas mais adequadas, evitando situações onde se coloquem em risco.

Não esperemos pela adolescência para nos sentarmos com os nossos filhos para conversar ou compreender determinado tipo de comportamento ou reação!

As novas tecnologias são só mais uma variável, como tantas outras, que podem ser utilizadas como oportunidade de encontro de pais e filhos! Com limites e regras, como em tudo na vida!"

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